
o dia começa a despedir-se. ao longe, ouvem-se os carros a passar, num sopro de distância. e aqui, sente-se, sinto os grilos a cantarolar. a falar numa língua que eu gostaria de um dia compreender. o vento soa, através da minha pele e dos meus cabelos despenteados. sentada à borda da água, os pés e os gémeos mergulhados, já não vejo o sol. mas as nuvens ainda lhe sorriem. a este, o azul escurece-se. mas as nuvens ainda lhe sorriem. a vida é maravilhosa.
é.
não finjo esquecer-me do ódio e da raiva que me perseguem, como perseguem tudo e todos, constantemente, todas e todos os dias. mas quando estou assim sozinha, no mundo. na pureza. uma onda que salpica, um cão que ladra, uma perdiz que voa pelo céu e as árvores, os pequenos arbustres que se enrolam numa amizade tão íntima de amor, acredito que o seja assim mesmo. porque no mundo existe doçura. existe inocência. existe tão plenamente à nossa volta, que nos passa pelo desprezo de tão natural que já é de simplesmente existir.
mas não me sinto triste. com nada. agora
não há maneira de me sentir triste.
oh, se eu pudesse pedir um desejo. e na verdade, posso. mas se fosse, de facto, concretizado, pediria que ele estivesse aqui comigo. nada mais. ou simplesmente que me ligasse. quem sabe se ele não conseguiria sentir todo este amor através da minha voz? agora. vejo-o a nadar. um ser aquático deslumbrante, que me sorri do fundo da água. e me salpica. as mãos, o peito, os braços, o ventre, o pescoço. e me beija. tão suavemente como saiu da profundeza do seu aconchego. e sinto-o sentar-se a meu lado, encostar-se a mim da maneira que só ele faz. numa unicidade quase perfeita de tão impossível. tão unicamente mágica.
do nada, só o oeste ilumina o céu. onde estará a lua? gostaria de ver saturno. gostaria de poder esquecer que sou terriana!
agora, quase caída a noite, um passarinho me canta. será um segredo? quem saberá...
como é bom saber respirar!
o que seria de mim se não soubesse respirar?