Yin res nullius

companheiro de viagem. espaço zen. sombra que me segue. um cantinho que me pertence. não atormenta, nem inquieta. um amigo que ouve e não responde. um silêncio sem som.

Caminho eternamente sobre estas margens,
entre a areia e a espuma.
O fluxo do mar apagará a impressão dos meus passos,
e o vento levará a espuma.
Mas o mar e a margem permanecerão
eternamente.

Kahlil Gibran

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

namastê


ser . ouvir . sentir

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

A morte do artista


Ele anda,
anda,
anda,
mas tudo o que sente é o atrito assomar-lhe a sombra.

E depois da sombra,
nada mais que ele resta.


A dor de poder ter sido,
o erro humano de ter desistido.


por Ana Bela Sininho

domingo, 4 de outubro de 2009


não há sabor no que não se sente, mas há amor aqui, no chão. porque eu sinto-o, e ele sente-me, ele frio e eu quente. e não importa eu ter alma e ele não. ou será que tem [?] porque ele me sente, e eu o sinto. e não há nada que mais sabor nos tenha.







o amor é assim.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

pião na estrada


não quero pensar no que não fui, quando nem sequer me ditei a ser alguém. bem menos sonhar que já fui, quando o que sou ainda tem muito por preencher. lacunas de um passado, um presente e dum futuro ausente. não há nada que eu não esconda, primeiro de mim, e depois dos outros, porque o ser humano sempre se dignou ao seu puro egocentrismo, e assim eu não deixarei a nossa raça cair na deshonra por uma simples qualidade efémera.

não entendi as palavras, e muito menos os significados. tem sido um erro constante no meu percurso pedestre e antigo, lento e faminto. inacabado e inacabável.

suo sem cheiro e respiro em silêncio. ouço na chuva a ausência da aventura, e quando ela está, calo-me e aprendo, e suspiro uma presença que deixou de existir, mas que se permanece. ainda me fazes falta.

e na falta, esqueço-me do mundo.
porque me disseram que o céu era da cor do azeite, e eu acreditei.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

o meu passado não existe

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

indagação sobre a lógica que não existe


está frio e a rua está deserta. tanto no seu início, como no seu fim, imaginar-lhe pessoas não tem sentido. alaranjada, sinuosa e quase descontraída. no seu fundo, uma subida convexa com outra descida, e mais outra. sem nexo.
nunca precisou de ter nexo.
eu costumava gostar de dizer anexo, como se fosse um lugar agarrado ao que à lógica não pertenceu. tinha a sua piada, digamos, até que me chamaram um nome feio.

não tenho complexos do mau feitio que tenho. mau feitio. tenho vergonha de nada saber, de nada tentar, de tudo perder. como quem joga dinheiro que não tem e cai na ruina pelo dobro. mais que humana, sou fraca por temer o que de bom me acontece.
o resultado é perdê-lo também.

continua a estar frio, mas a rua já não soa a deserta. e eu sinto-me só. não na solidão de que toda a gente fala meticulosamente, como uma ocasionalidade rara e feliz nas suas vidas. esta é minha amiga. sim, há oito anos. acompanha-me; protege-me dos meus medos, ajudando-me a fugir; envolve-me em mim e ama-me como mais ninguém. não é a minha sombra. sê-lo-á quando ganhar voz. até lá, a minha sombra será a minha sombra e a minha solidão, a minha solidão.

não tenho medo de estar sozinha. não neste momento. não agora, nem aqui. porque o mundo caiu do céu, sem chuva e sem vento, durante um belo dia de sol, alguma brisa fresca e um ar ameno. simplesmente caiu. rebolou sem saber para que lado estava o mar, e afundou. magoado com o chão e transtornado pelo monte, esqueceu-se que eu era pequenina, e que ele era muito grande.
e pesado.


não sei o que sinto.
tudo quanto sei é que lhe perdi o sabor.

sábado, 12 de setembro de 2009




a única vontade que tenho é de me isolar numa arte que não é minha

quinta-feira, 3 de setembro de 2009


if i lay here
if i just lay here
would you lie with me and just forget the world?



gostava de esquecer as palavras, esquecer-me de como se desenham letras. voltar a ser a criança que fui, num abismo mais maduro. ter a felicidade de dançar por dançar, num gesto tão simples quanto de bonito, estejas aqui, ou estejas ali.

porque existe uma noite. uma noite de três mil estrelas e sem lua. uma mancha branca quase a este e antares lá para o sul. e para mim, é tudo quanto existe.

domingo, 23 de agosto de 2009

um dia entre o ontem e o amanhã


estou cansada. de pensar que chegou a hora, o momento, a sorte ou o dia. que é hoje ou amanhã que o mundo vai parar de girar, ou que o mesmo não aconteceu ontem porque eu não o consegui escrevinhar.
tretas.
umas atrás das outras.
enquanto as pessoas se vão conhecendo, trocando olhares e sorrisos, beijinhos e carinhos, umas línguas e perversidades demasiado púdicas para algumas existências terrestres, que apesar de tudo não se dão ao luxo de não passar sem elas, eu vou-me cansando.

enquanto as pessoas vão olhando e falando e comentando e criticando e invejando e ignorando, ou fazendo que ignoram, eu vou usando gerúndios - uma forma agradável de me esquecer que já não vejo quem me ajudou a crescer e a sorrir, ou a voltar a aprender a sorrir.

e quanto a isto, nada de tretas. talvez daqui a uns dias, quando descobrir que afinal não és tão perfeito como aparentas, tão cavalheiro como demonstras, nem tão honesto como pretendes.

os homens acabam todos por ser iguais.
até ao dia.

sábado, 15 de agosto de 2009

il segreto di un momento - senza di voi mi


o dia começa a despedir-se. ao longe, ouvem-se os carros a passar, num sopro de distância. e aqui, sente-se, sinto os grilos a cantarolar. a falar numa língua que eu gostaria de um dia compreender. o vento soa, através da minha pele e dos meus cabelos despenteados. sentada à borda da água, os pés e os gémeos mergulhados, já não vejo o sol. mas as nuvens ainda lhe sorriem. a este, o azul escurece-se. mas as nuvens ainda lhe sorriem. a vida é maravilhosa.
é.

não finjo esquecer-me do ódio e da raiva que me perseguem, como perseguem tudo e todos, constantemente, todas e todos os dias. mas quando estou assim sozinha, no mundo. na pureza. uma onda que salpica, um cão que ladra, uma perdiz que voa pelo céu e as árvores, os pequenos arbustres que se enrolam numa amizade tão íntima de amor, acredito que o seja assim mesmo. porque no mundo existe doçura. existe inocência. existe tão plenamente à nossa volta, que nos passa pelo desprezo de tão natural que já é de simplesmente existir.

mas não me sinto triste. com nada. agora
não há maneira de me sentir triste.

oh, se eu pudesse pedir um desejo. e na verdade, posso. mas se fosse, de facto, concretizado, pediria que ele estivesse aqui comigo. nada mais. ou simplesmente que me ligasse. quem sabe se ele não conseguiria sentir todo este amor através da minha voz? agora. vejo-o a nadar. um ser aquático deslumbrante, que me sorri do fundo da água. e me salpica. as mãos, o peito, os braços, o ventre, o pescoço. e me beija. tão suavemente como saiu da profundeza do seu aconchego. e sinto-o sentar-se a meu lado, encostar-se a mim da maneira que só ele faz. numa unicidade quase perfeita de tão impossível. tão unicamente mágica.

do nada, só o oeste ilumina o céu. onde estará a lua? gostaria de ver saturno. gostaria de poder esquecer que sou terriana!
agora, quase caída a noite, um passarinho me canta. será um segredo? quem saberá...
como é bom saber respirar!

o que seria de mim se não soubesse respirar?

terça-feira, 11 de agosto de 2009

धन्यवाद


quando me pediste para olhar para ti, lembras-te de quando me pediste para olhar para ti? desviei o meu olhar do teu, mas tu insististe.

insististe em ficar comigo. insististe em existir em mim.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

falsa é a lua de tão só que ela é - e me faz sempre e sempre ser


mas se eu fizesse de conta que tu não exisistes, como durante tanto tempo me consegui fazer acreditar - quase imperceptivelmente, enganar-me-ia a mim própria e desdiria coisas que te mostrei tão só a ti. em tão poucos dias. em momentos que me fizeram nascer. ou renascer.

mas se tu fizesses de conta que eu não existo, como quando durante tanto tempo eu pensei ser assim que existia em ti - um vazio tão crescente que do nada permanece em nada e de repente se transforma em tudo. mas não! não vamos deixar que se transforme. deixa tudo ficar assim. tu ali. e eu aqui.

porque eu era feliz. por muitas lágrimas que me tenham caído de outros homens. por muitos enganos que eu tenha aceite e pressentido e muita culpa inocente me tenha recaído. eu era feliz.
não que já não o seja. sou-o contigo a meu lado. por muito que não estejas aqui. quando vi os teus olhos. nos meus. soube que por muito longe que permanecesses a partir daquele dia, nunca mas nunca mais partirias de mim.

não que sejas meu. és tão simplesmente teu.
mas existe em mim, um pedaço de ti. tal como exite em ti, um pedaço de mim.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

um misto de beleza


sobre o sopro do luar, na noite escura. bem escurecida pelo teu negrume. eu fumava. do teu fumo. tão agradavelmente sentia-me viva. colorida de tudo o que não existe, mas que tu fizeste existir. porque desde sempre. um sempre muito presente de tanta ausência. sem nunca teres notado, ou sequer dado por isso. desde o primeiro momento. que talvez não recordes, mas que de mim nunca mais partiu. como um parasita que sem incomodar, aqui ficou. aqui, ali, além, desde que nunca saisse de mim. era e ainda é o grande lema do rumo que leva.

quanto a mim, raramente confio. e ouço vozes rirem-se de mim. mas já me são completamente indiferentes. há tantos anos que as ouço, que não será por mais uns dias de loucura que elas me hão-de apagar tudo o que em mim criaste.


tão desde sempre. tão sempre sem notares.

mas não te culpes, se aqui chegares, porque eu também fiz de conta que não notei.

sinto muito, tudo quase de todas as maneiras. mas mostro pouco. mais que quase nada.
posso pedir-te desculpa pela minha timidez, se o quiseres. mas prefiro assim.
olhar-te sem exuberância. sentir e viver-te sem mais nenhuma presença.
só tu. e só eu.
nada mais que a nossa existência